O PECS pode ser uma ferramenta útil para crianças que ainda não falam, que falam muito pouco ou que têm dificuldade em usar a fala para comunicar de forma funcional.
Para muitas famílias, a grande preocupação é perceber se usar imagens vai atrasar a fala, se a criança vai ficar dependente dos cartões ou se esta estratégia deve ser usada apenas em casos de autismo. A resposta exige prudência: o PECS pode ajudar algumas crianças, mas deve ser bem indicado, bem ensinado e integrado num plano mais amplo de comunicação.
O termo PECS vem de Picture Exchange Communication System, ou seja, sistema de comunicação por troca de imagens. Na prática, a criança aprende a entregar uma imagem a outra pessoa para pedir algo, iniciar uma interação ou, em fases mais avançadas, construir pequenas frases e fazer comentários. É uma forma estruturada de comunicação aumentativa e alternativa, usada quando a fala ainda não é suficiente para responder às necessidades do dia a dia.
Este artigo explica o que é o PECS, como funciona, para que crianças pode fazer sentido e que cuidados devem existir antes de o aplicar em casa, na escola ou em contexto de terapia da fala.
O que é o PECS?
O PECS é um sistema de comunicação por troca de imagens. A criança aprende que pode entregar uma imagem a um adulto para obter algo que quer, como um brinquedo, uma bolacha, uma atividade ou uma pausa. A ideia central é ensinar a criança a iniciar comunicação de forma funcional, em vez de depender apenas do adulto para fazer perguntas, adivinhar necessidades ou antecipar tudo.
O PECS não é apenas “usar cartões”. Também não é simplesmente mostrar pictogramas à criança. O sistema tem uma sequência própria de ensino e deve ser aplicado com objetivos claros. Começa por pedidos simples e pode evoluir para escolha entre imagens, construção de frases, resposta a perguntas e comentários.
Para uma criança que ainda não fala, esta estrutura pode ser importante porque transforma a comunicação em algo concreto. A criança percebe que comunicar tem efeito: quando entrega a imagem certa, outra pessoa compreende a sua intenção e responde.
PECS é o mesmo que usar pictogramas?
Não exatamente. Os pictogramas podem fazer parte do PECS, mas nem todo o uso de pictogramas é PECS. Esta diferença é importante.
Uma família pode usar imagens para organizar rotinas, antecipar o banho, mostrar a sequência do dia ou ajudar a criança a escolher entre duas atividades. Isso é apoio visual e pode ser muito útil. O PECS, por outro lado, é um sistema específico de ensino da comunicação por troca de imagens, com fases progressivas e objetivos de iniciação comunicativa.
Por exemplo, mostrar à criança a imagem de “lanche” para avisar que vai comer é diferente de ensinar a criança a pegar numa imagem de “lanche”, ir até ao adulto e entregar essa imagem para pedir comida. No primeiro caso, a imagem apoia a compreensão. No segundo, a imagem é usada pela criança para expressar uma intenção.
Para que crianças o PECS pode ser indicado?
O PECS pode ser considerado quando a criança tem dificuldade significativa em comunicar através da fala. Não é exclusivo de crianças com autismo, embora seja muito usado nesse contexto. Também pode ser considerado em crianças com perturbações do desenvolvimento da linguagem, deficiência intelectual, síndromes genéticas, apraxia da fala infantil, dificuldades motoras ou outras condições que limitem a expressão oral.
Algumas situações em que o PECS pode ser avaliado incluem:
- Criança que ainda não usa palavras para pedir ou responder.
- Criança que comunica sobretudo através de choro, birras, puxar o adulto pela mão ou levar o adulto até ao objeto.
- Criança que tem intenção comunicativa, mas não consegue expressá-la com clareza.
- Criança que compreende algumas rotinas, mas não consegue iniciar comunicação.
- Criança com autismo que usa pouca fala funcional.
- Criança que repete palavras, mas tem dificuldade em pedir, escolher ou comentar.
- Criança com fala muito limitada e frustração frequente por não ser compreendida.
O PECS não deve ser escolhido apenas porque a criança “não fala”. Primeiro, é necessário perceber como comunica, o que compreende, o que a motiva, que gestos usa, como brinca, como responde ao adulto e se consegue discriminar imagens. Quando existe atraso de linguagem, a decisão deve resultar de avaliação individual, não de uma regra igual para todas as crianças.
Como o PECS ajuda crianças que ainda não falam?
O PECS pode ajudar porque oferece à criança uma forma concreta, visual e funcional de comunicar. Em vez de depender exclusivamente da fala, a criança passa a ter uma alternativa para expressar necessidades e intenções.
Ajuda a iniciar comunicação
Uma das características mais importantes do PECS é ensinar a criança a iniciar a interação. Muitas crianças com dificuldades de comunicação só respondem quando o adulto pergunta. Outras esperam que o adulto adivinhe o que querem. No PECS, a criança aprende que pode ir até ao parceiro de comunicação e entregar uma imagem para comunicar.
Este ponto é particularmente relevante em crianças com autismo, porque a dificuldade pode não estar apenas nas palavras, mas também na iniciativa social, na atenção conjunta e no uso funcional da comunicação. Por isso, estratégias de estimulação da linguagem em casa podem complementar o PECS, desde que sejam ajustadas ao perfil da criança.
Reduz frustração e comportamentos difíceis de interpretar
Quando uma criança não consegue pedir, recusar ou escolher, pode usar o corpo para comunicar. Pode chorar, gritar, fugir, atirar objetos, agarrar o adulto ou ficar muito irritada. Estes comportamentos nem sempre são “mau comportamento”. Muitas vezes, são comunicação sem forma clara.
Se a criança aprende a entregar uma imagem para pedir “água”, “pausa”, “brincar” ou “ajuda”, pode sentir maior controlo sobre o ambiente. Isto não resolve todos os comportamentos, mas pode reduzir parte da frustração associada à dificuldade em ser compreendida.
Cria uma ponte entre intenção e linguagem
O PECS pode ajudar a criança a perceber que comunicar envolve uma intenção, um parceiro e uma resposta. Esta ponte é importante porque muitas crianças ainda não usam palavras, mas já têm desejos, preferências, desconfortos e interesses. O sistema torna essa intenção mais visível.
Nas fases iniciais, a comunicação pode estar muito centrada em pedidos. Depois, o objetivo deve ser expandir. A criança precisa de comunicar mais do que “quero”. Também precisa de dizer “não”, “acabou”, “ajuda”, “gosto”, “não gosto”, “estou cansado”, “olha” e “quero brincar”.
O PECS atrasa a fala?
Esta é uma das dúvidas mais frequentes. A evidência disponível sobre comunicação aumentativa e alternativa não apoia a ideia de que dar uma forma alternativa de comunicação impeça a fala. Pelo contrário, quando bem aplicada, uma estratégia visual pode reduzir pressão, aumentar oportunidades de comunicação e criar mais interações significativas.
No entanto, isto não significa que o PECS faça todas as crianças começar a falar. Algumas crianças podem desenvolver mais vocalizações ou palavras. Outras podem continuar a precisar de imagens, gestos, quadros de comunicação ou dispositivos digitais. O objetivo principal deve ser comunicação funcional, não apenas produção de fala.
Na prática clínica, é importante evitar duas ideias extremas: pensar que o PECS “cura” a ausência de fala, ou pensar que o PECS impede a fala. Nenhuma destas posições é rigorosa. O PECS é uma ferramenta, não uma garantia. O seu valor depende da criança, da qualidade da implementação, da motivação, do contexto e do acompanhamento especializado.
As fases do PECS explicadas de forma simples
O PECS é organizado em fases. Esta progressão ajuda a criança a passar de uma troca simples para formas mais complexas de comunicação.
Fase 1: aprender a trocar uma imagem
A criança aprende a pegar numa imagem de algo que quer e entregá-la a um parceiro de comunicação. O objetivo é perceber que a imagem serve para comunicar e que a comunicação tem consequência.
Fase 2: comunicar com persistência
A criança aprende a procurar o adulto, deslocar-se até ele e insistir na comunicação. Isto ajuda a generalizar a competência para diferentes espaços, pessoas e momentos.
Fase 3: escolher entre imagens
A criança aprende a distinguir imagens. Em vez de usar sempre uma imagem isolada, começa a selecionar a imagem que corresponde ao que quer pedir.
Fase 4: construir frases simples
A criança aprende a usar uma estrutura, como “eu quero” seguida da imagem do objeto ou atividade. Esta fase aproxima o sistema de uma organização mais linguística.
Fase 5: responder a perguntas
A criança aprende a responder a perguntas como “o que queres?”. Apesar de útil, esta fase não deve substituir a comunicação espontânea. Responder é diferente de iniciar.
Fase 6: comentar
A criança aprende a usar o sistema para comentar o que vê, ouve, sente ou percebe. Esta fase é essencial porque comunicação não é apenas pedir coisas. Também é partilhar atenção, interesse e experiência.
PECS em casa: o que os pais devem saber
O PECS pode parecer simples, mas deve ser usado com orientação. Criar cartões e pedir à criança para os entregar não chega. A família precisa de perceber quando usar, como responder, como evitar dependência de prompts e como criar oportunidades naturais.
Alguns cuidados importantes:
- Escolher imagens de itens realmente motivadores para a criança.
- Usar poucas imagens no início, mas com intenção clara de expandir o vocabulário.
- Não transformar todas as interações em treino.
- Responder de forma rápida e consistente quando a criança comunica.
- Evitar pedir sempre que a criança repita oralmente a palavra.
- Usar o sistema em rotinas reais, como lanche, banho, brincadeira e saída de casa.
- Envolver escola, família e outros cuidadores para haver consistência.
O uso em casa deve ser funcional. A criança deve perceber que comunicar serve para influenciar o mundo, não apenas para acertar cartões. Por isso, o PECS deve aparecer em momentos naturais e não ficar guardado numa pasta usada apenas na consulta.
PECS na escola e em contexto social
Na escola, o PECS pode ajudar a criança a pedir ajuda, escolher atividades, responder a rotinas, participar em brincadeiras e comunicar necessidades básicas. Mas o objetivo não deve ser apenas a adaptação da criança ao ambiente escolar. O ambiente também deve adaptar-se para permitir comunicação.
Professores, auxiliares e terapeutas precisam de saber onde está o livro de comunicação, como responder às tentativas da criança e como criar momentos de participação. Se o sistema só é usado com um adulto específico, a criança pode não generalizar a competência.
O ideal é que o PECS esteja articulado com os objetivos definidos em terapia da fala para crianças, com a família e com a escola. A comunicação deve ser trabalhada nos contextos onde a criança realmente vive, aprende e brinca.
Limitações do PECS
O PECS pode ser útil, mas tem limites. Nem todas as crianças respondem da mesma forma. Algumas têm dificuldade em discriminar imagens. Outras não se interessam pelos objetos usados como motivação. Algumas podem usar o sistema apenas para pedir, sem desenvolver comentários ou interação mais rica. Outras podem precisar de sistemas mais robustos, como quadros de comunicação com vocabulário essencial, aplicações ou dispositivos com voz.
Também é importante não confundir implementação com resultado. Se o PECS é mal aplicado, com imagens pouco motivadoras, excesso de ajuda física, pouca generalização ou falta de objetivos comunicativos, é provável que o progresso seja limitado.
Por isso, o PECS deve ser visto como uma opção dentro de um conjunto maior de estratégias de comunicação. Em algumas crianças, será uma boa porta de entrada. Noutras, pode ser insuficiente ou pouco adequado.
PECS, autismo e comunicação funcional
Em crianças com autismo, a comunicação pode estar afetada de várias formas. Algumas não falam. Outras falam, mas usam poucas palavras com intenção social. Algumas repetem frases, mas têm dificuldade em pedir ajuda ou partilhar interesses. Outras sabem nomear objetos, mas não conseguem comunicar desconforto.
O PECS pode ajudar sobretudo quando a criança precisa de aprender que comunicar é uma ação dirigida a outra pessoa. Não se trata apenas de identificar imagens. Trata-se de criar uma troca comunicativa.
Ainda assim, a intervenção no autismo deve ser mais ampla. Pode incluir brincadeira, atenção conjunta, turnos de interação, compreensão de rotinas, comunicação social, regulação emocional e apoio à família. O PECS pode ser uma ferramenta dentro desse plano, mas não deve ser o plano inteiro.
Quando procurar avaliação especializada?
Deve procurar avaliação quando a criança ainda não fala, comunica pouco, mostra frustração frequente ou não consegue expressar necessidades de forma clara. Também é aconselhável pedir orientação se a escola ou a família já usam imagens, mas sem progressos consistentes.
O terapeuta da fala pode avaliar se o PECS faz sentido, se a criança beneficiaria mais de outro sistema de comunicação aumentativa e alternativa, ou se deve ser criado um plano combinado. Esta decisão deve considerar a comunicação atual da criança, a compreensão, a intenção comunicativa, a motricidade, os interesses e os contextos onde precisa de comunicar.
Em muitos casos, a terapia da fala online também pode ajudar os pais a ajustar estratégias em casa, sobretudo quando o objetivo é orientar rotinas, modelar o uso de imagens e acompanhar a evolução da comunicação. A indicação deve ser feita caso a caso.
Conclusão
O PECS pode ajudar crianças que ainda não falam porque oferece uma forma concreta de iniciar comunicação. Para algumas crianças, esta ponte reduz frustração, aumenta autonomia e cria mais oportunidades de interação. Para outras, pode ser apenas uma etapa antes de sistemas mais completos ou de outras formas de comunicação.
O ponto essencial é não esperar pela fala para permitir comunicação. Uma criança que ainda não fala continua a ter vontades, interesses, desconfortos, escolhas e ideias. Dar-lhe uma forma de se expressar não é desistir da fala. É reconhecer que comunicar começa antes das palavras.
Quando bem escolhido e bem acompanhado, o PECS pode ser uma ferramenta relevante. Mas deve ser usado com critério, com objetivos funcionais e com acompanhamento profissional, especialmente quando estão em causa crianças pequenas, autismo, atraso de linguagem ou dificuldades complexas de comunicação.
Referências bibliográficas
- Pyramid Educational Consultants. PECS: An Evidence-Based Practice.
- American Speech-Language-Hearing Association. Augmentative and Alternative Communication AAC.
- American Speech-Language-Hearing Association. Augmentative and Alternative Communication AAC Practice Portal.
- Flippin, M., Reszka, S. & Watson, L. R. Effectiveness of the Picture Exchange Communication System PECS on Communication and Speech for Children With Autism Spectrum Disorders: A Meta-Analysis.
- Hart, S. L. & Banda, D. R. Picture Exchange Communication System With Individuals With Developmental Disabilities: A Meta-Analysis of Single Subject Studies.
Resumo rápido deste artigo
O PECS pode ajudar crianças que ainda não falam porque oferece uma forma concreta de iniciar comunicação. Para algumas crianças, esta ponte reduz frustração, aumenta autonomia e cria mais oportunidades de interação. Para outras, pode ser apenas uma etapa antes de sistemas mais completos ou de outras formas de comunicação.
O que vai encontrar neste artigo
- Ajuda a iniciar comunicação
- Reduz frustração e comportamentos difíceis de interpretar
- Cria uma ponte entre intenção e linguagem
- As fases do PECS explicadas de forma simples
- Fase 1: aprender a trocar uma imagem
- Fase 2: comunicar com persistência
- Fase 3: escolher entre imagens
- Fase 4: construir frases simples
Pontos principais
- Pelo contrário, quando bem aplicada, uma estratégia visual pode reduzir pressão, aumentar oportunidades de comunicação e criar mais interações significativas. No entanto, isto não significa que o PECS faça todas as crianças começar a falar.
- Escolher imagens de itens realmente motivadores para a criança.
- Criança que tem intenção comunicativa, mas não consegue expressá-la com clareza.
- Pode chorar, gritar, fugir, atirar objetos, agarrar o adulto ou ficar muito irritada.
- Trata-se de criar uma troca comunicativa. Ainda assim, a intervenção no autismo deve ser mais ampla.
- Primeiro, é necessário perceber como comunica, o que compreende, o que a motiva, que gestos usa, como brinca, como responde ao adulto e se consegue discriminar imagens.
Perguntas respondidas
- O que é o PECS?
- PECS é o mesmo que usar pictogramas?
- Para que crianças o PECS pode ser indicado?
- Como o PECS ajuda crianças que ainda não falam?
- O PECS atrasa a fala?
- Quando procurar avaliação especializada?
Termos importantes
Fontes e referências externas presentes no artigo
- Picture Exchange Communication System pmc.ncbi.nlm.nih.gov
- PECS: An Evidence-Based Practice pecsusa.com
- Augmentative and Alternative Communication AAC www.asha.org
- Augmentative and Alternative Communication AAC Practice Portal www.asha.org
- Doi doi.org
Autor: DaFala · Publicado em: 15 de Julho, 2026



