O meu filho ainda não fala: o que fazer?

Ouvir outras crianças da mesma idade a falar e sentir que o seu filho “fica para trás” dói. A frase “o meu filho ainda não fala” começa a repetir-se na cabeça, muitas vezes acompanhada de culpa, medo e dúvidas: será normal? Estou a exagerar? E se tiver mesmo algum problema?

Ouvir outras crianças da mesma idade a falar e sentir que o seu filho “fica para trás” dói. A frase “o meu filho ainda não fala” começa a repetir-se na cabeça, muitas vezes acompanhada de culpa, medo e dúvidas: será normal? Estou a exagerar? E se tiver mesmo algum problema?

A boa notícia é que existem formas claras de perceber quando o atraso pode ser apenas variação individual e quando é um sinal de alerta. Mais importante ainda: há muito que pode ser feito, e quanto mais cedo agir, melhor.

A intervenção em terapia da fala, seja presencial ou em formato de terapia da fala online, pode começar mesmo antes da criança dizer as primeiras palavras, trabalhando a comunicação de forma global. 

 

O meu filho ainda não fala: é normal ou devo preocupar-me?

É verdade que “cada criança tem o seu ritmo”, mas isso não significa que tudo seja sempre normal. Existem marcos de desenvolvimento que ajudam a perceber se a linguagem está a acompanhar o crescimento global. De forma geral, muitas crianças costumam apresentar:

  • por volta dos 12 meses – 1 a 2 palavras com significado (por exemplo, “mamã”, “papá”, “dá”), além de muitos gestos e vocalizações;
  • por volta dos 18 meses – pelo menos 10 palavras funcionais, capacidade de apontar para pedir e compreender ordens simples (“dá a bola”, “vem aqui”); 
  • por volta dos 24 meses – combinação de 2 ou mais palavras (“quer água”, “mais pão”), aumento rápido do vocabulário;
  • por volta dos 3 anos – frases com 3 ou mais palavras, linguagem compreensível para a família e, progressivamente, para pessoas menos próximas. 

Se o seu filho estiver significativamente abaixo destes marcos, especialmente se:

  • não diz nenhuma palavra com significado por volta dos 16–18 meses;
  • não junta duas palavras aos 2 anos;
  • quase ninguém o entende aos 3 anos,

então não é exagero procurar ajuda. Não significa automaticamente um problema grave, mas é um sinal de que vale a pena olhar com atenção para o desenvolvimento da linguagem. 

 

Porque é que o meu filho ainda não fala?

Não há uma única resposta. “O meu filho ainda não fala” pode ter muitas explicações diferentes, e em muitos casos há mais do que um fator envolvido. As causas mais frequentes incluem:

  • Variação individual – algumas crianças começam a falar um pouco mais tarde, mas já mostram boa compreensão, muitos gestos, contacto visual e clara intenção de comunicar. Mesmo assim, convém acompanhar;
  • Atraso da linguagem – a criança segue a mesma sequência de desenvolvimento dos pares, mas de forma mais lenta. Aqui, um acompanhamento em atraso da linguagem pode acelerar ganhos e evitar dificuldades futuras;
  • Perturbação do desenvolvimento da linguagem – a forma como a linguagem se organiza é mais afetada, com dificuldades em compreender e em falar, que tendem a persistir sem intervenção;
  • Alterações auditivas – perdas de audição, mesmo ligeiras, podem dificultar a perceção da fala e atrasar a aquisição de palavras; 
  • Condições neurológicas ou do neurodesenvolvimento – em alguns casos, o atraso de linguagem integra quadros mais abrangentes (por exemplo, perturbação do espetro do autismo, perturbações motoras, apraxia da fala infantil);
  • Factores ambientais – pouca oportunidade de interação, muito tempo de ecrã ou ambientes muito ruidosos podem agravar um atraso, embora não sejam, por si só, a causa principal;
  • Bilinguismo mal compreendido – crescer com duas línguas não “atrapalha” o cérebro, mas exige organização. Em crianças vulneráveis, pode tornar mais visível uma dificuldade que já existia.

É por isso que o primeiro passo não é “ver vídeos no YouTube com exercícios”, mas sim compreender o que está por detrás da frase “o meu filho ainda não fala”. Cada caso é mesmo um caso.

Sinais de alerta por idade

Para perceber melhor se é hora de agir, pode usar estes sinais de alerta como guia. Não servem para rotular, mas para ajudar a decidir quando procurar avaliação em problemas na fala infantil.

Até aos 12 meses

    • pouco ou nenhum balbucio (sons tipo “bababa”, “dadada”);
    • falta de resposta a sons familiares ou ao nome (depois de excluídos problemas auditivos);
    • quase não olha para quem fala com ele, pouco contacto ocular;
    • não usa gestos como apontar, dar, “adeus”.

Entre os 12 e os 24 meses

    • não diz nenhuma palavra com significado por volta dos 16–18 meses;
    • não tenta imitar sons, palavras ou gestos dos adultos;
    • parece não perceber ordens simples (“dá”, “vem”, “senta”);
    • não junta duas palavras por volta dos 2 anos (“mais pão”, “quer água”). 

A partir dos 2–3 anos

    • vocabulário muito reduzido para a idade, com poucas palavras funcionais;
    • dificuldade em ser compreendido, mesmo pela família;
    • quase não faz frases, ou usa apenas palavras soltas para pedir;
    • parece “alheado” em contexto de grupo, responde pouco às perguntas;
    • mostra muita frustração quando não é compreendido (birras frequentes ligadas à comunicação).

Se se revê em vários destes pontos, não é sinal para entrar em pânico, mas é um aviso claro de que “esperar para ver” pode não ser a melhor opção.

 

O que fazer quando o seu filho ainda não fala

Perceber que há um atraso é apenas o primeiro passo. A seguir, é importante saber o que fazer, de forma organizada e prática. Pode seguir estes passos:

1. Observar a comunicação para além das palavras

Mesmo que o seu filho ainda não diga palavras, veja se:

    • olha para si e para o que está a mostrar;
    • usa gestos para pedir (aponta, puxa pela mão, oferece objetos);
    • imita sons de brincadeira (carros, animais, risos);
    • reage a músicas, vozes, chamadas pelo nome.

Estas formas de comunicação são a base sobre a qual as palavras se vão construir. Se também estiverem muito reduzidas, é ainda mais importante pedir ajuda cedo.

2. Falar com o pediatra

O pediatra conhece o percurso global do seu filho e pode:

    • avaliar se há sinais que indiquem necessidade de estudo da audição;
    • analisar o desenvolvimento motor, cognitivo e social em conjunto com a linguagem;
    • orientar para outros especialistas, se necessário;
    • encaminhar para terapia da fala quando identifica sinais de alerta. 

3. Agendar uma avaliação em terapia da fala

É um mito pensar que “só faz sentido ir ao terapeuta da fala quando a criança já fala”. Mesmo antes das primeiras palavras, uma avaliação pode ajudar a perceber como está a comunicação e que estratégias podem ser usadas em casa.

Na avaliação, o terapeuta observa a interação, brincadeira, compreensão de linguagem, uso de gestos, sons produzidos e marcos de desenvolvimento, explicando depois o que está a acontecer e qual o plano recomendado.

 

Como a terapia da fala ajuda quando o seu filho ainda não fala

Em crianças pequenas, a intervenção é muito mais do que “fazer exercícios de repetir palavras”. O foco é criar as condições para que a linguagem desabroche, trabalhando a comunicação como um todo.

Em linhas gerais, um acompanhamento em terapia da fala pediátrica pode incluir:

  • jogos para aumentar a atenção conjunta (olhar para o mesmo brinquedo, partilhar experiências);
  • brincadeiras sonoras (onomatopeias, músicas, rimas) para estimular a imitação;
  • estratégias para os pais usarem em casa (como falar, que palavras escolher, como responder à criança);
  • introdução gradual de sinais, gestos e palavras funcionais, sempre em contexto de rotina;
  • ajuste do ambiente: menos ruído, menos ecrãs, mais momentos de interação cara a cara. 

Quando existem condições mais específicas, como apraxia da fala infantil ou perturbações mais complexas da linguagem, o plano é adaptado, mas mantém sempre a mesma lógica: tornar a comunicação mais fácil e eficaz para a criança e para a família.

 

O que pode fazer em casa se o seu filho ainda não fala

Enquanto espera por avaliação, ou em paralelo com o acompanhamento, há muito que pode fazer em casa para ajudar. Não substitui o trabalho profissional, mas potencializa os resultados. Algumas estratégias simples:

  • Fale muito com o seu filho – descreva o que estão a fazer, diga o nome dos objetos, narre as rotinas (“agora vamos tomar banho”, “estou a cortar a banana”); 
  • Use frases curtas e claras – em vez de longos discursos, prefira frases simples, repetidas, com palavras-chave (“olha a bola”, “quer água?”);
  • Espere e dê espaço para responder – depois de falar, pare e dê tempo para que o seu filho tente imitar um som, gesto ou expressão;
  • Brinque cara a cara – sente-se à frente da criança, à altura dos olhos, com poucos brinquedos, para facilitar o contacto;
  • Reduza o tempo de ecrã – televisão, tablet e telemóvel não substituem a interação real; o cérebro aprende a falar com pessoas, não com imagens;
  • Leia livros simples – com poucas palavras e muitas imagens; aponte, nomeie, repita, deixe que a criança escolha a página;
  • Valorize qualquer tentativa de comunicar – olhares, sons, gestos ou palavras aproximadas merecem resposta e entusiasmo.

Muitas destas ideias são aprofundadas em planos estruturados ao estilo de como fazer terapia da fala em casa, que ajudam os pais a levar a intervenção para o dia a dia, de forma natural.

 

Devo temer um diagnóstico grave?

Quando os pais ouvem que o filho tem “atraso da linguagem” ou possibilidade de uma perturbação mais complexa, é natural que se assustem. É importante lembrar:

  • o diagnóstico não é uma sentença, é uma ferramenta para orientar melhor a ajuda;
  • há crianças com atrasos ligeiros que, com apoio, recuperam e acompanham os pares;
  • mesmo quando existe uma perturbação mais persistente, a intervenção correta melhora muito a comunicação e a qualidade de vida;
  • ignorar a preocupação “o meu filho ainda não fala” por medo do que possa ser costuma ter mais riscos do que procurar esclarecer.

Se também há sinais como pouco contacto ocular, quase nenhuma resposta ao nome, brincadeira muito repetitiva ou ausência de gestos, o pediatra pode sugerir outros estudos. Mas seja qual for a hipótese em causa, apoiar a comunicação e a linguagem é sempre uma prioridade,  nunca “faz mal”.

 

Conclusão

Quando a frase “o meu filho ainda não fala” começa a fazer parte do seu dia a dia, o silêncio pesa. Pode ser apenas um atraso ligeiro, pode ser algo mais consistente mas só vai saber se der o passo de pedir ajuda.

Observar, falar com o pediatra, marcar uma avaliação em terapia da fala e ajustar as rotinas em casa são decisões concretas que pode tomar já. Quanto mais cedo agir, mais fácil será apoiar o desenvolvimento da linguagem, prevenir dificuldades na escola e dar ao seu filho a oportunidade de se fazer ouvir, à sua maneira, no seu tempo, mas com o suporte de que precisa.

Se sente que “qualquer coisa não está bem”, confie nesse instinto. Procurar ajuda não é dramatizar, é cuidar. Cada gesto, cada olhar e, mais tarde, cada palavra contam, e nunca é demasiado cedo para começar esse caminho.

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  • Daniel, L. G. A. (2011). O estudo das perturbações da aquisição e desenvolvimento da linguagem. Dissertação de mestrado.
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Nota importante: As estratégias e aplicações aqui apresentadas destinam-se apenas a fins informativos e de apoio complementar. Não substituem a avaliação nem a intervenção de um terapeuta da fala. O acompanhamento profissional é essencial para garantir a correta articulação dos sons e a adequação das atividades às necessidades individuais.

Sempre que a criança (ou adulto) ainda não consegue produzir o som corretamente em isolamento ou sílaba, deve procurar orientação direta de um terapeuta da fala antes de utilizar recursos de prática autónoma.

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