Dislalia: o que é, causas e tratamento

Quando uma criança tem dificuldade em articular certos sons e pronunciar palavras com clareza, podemos estar perante a condição conhecida como dislalia. Neste artigo explicamos de forma clara e acessível o que é a dislalia, quais são as suas causas, como se manifesta e como pode ser tratada.

Quando uma criança diz “tato” em vez de “gato” ou “pato” em vez de “prato”, muitos adultos acham graça e dizem que “é normal, está a aprender”. Em muitas situações é verdade. Mas, noutros casos, estes erros podem ser sinal de dislalia e convém perceber melhor para não deixar passar algo importante.

A dislalia é uma alteração na articulação dos sons da fala, muito comum na infância, em que a criança troca, omite ou distorce alguns fonemas, tornando a fala menos clara para quem a ouve.

Embora seja normal existirem erros na fala até certa idade, quando essas dificuldades se mantêm, podem afetar a autoestima, a interação com outras crianças e até a aprendizagem da leitura e da escrita.

Neste artigo, vamos explicar de forma simples e completa o que á a dislalia, causas e tratamento, quais os sinais de alerta, como é feito o diagnóstico em terapia da fala, que resultados pode esperar e o que pode fazer em casa para ajudar a criança.

 

Dislalia: o que é e como se manifesta no dia a dia

A dislalia é um distúrbio da fala em que a pessoa tem dificuldade em articular corretamente determinados sons (fonemas), apesar de ter audição, inteligência e desenvolvimento global dentro do esperado.

Em termos simples:

  • A criança troca um som por outro

    • Exemplo: “tato” em vez de “gato”, “papo” em vez de “prato”

  • Omissão de sons

    • Exemplo: “ato” em vez de “gato”

  • Distorção ou “som esquisito”

    • O som é produzido, mas de forma diferente do esperado

Na dislalia, a criança sabe o que quer dizer, tem ideias e vocabulário, mas a forma como articula os sons impede que a mensagem saia clara. É por isso que é classificada como perturbação articulatória ou fonológica, centrada sobretudo na produção dos sons da fala.

Dislalia e desenvolvimento normal da fala

Nem todos os erros de pronúncia são dislalia. Para não rotular em excesso, é fundamental perceber o que é esperado em cada idade e quando esses erros passam a ser um sinal.

Nos primeiros anos de vida, é normal que a fala seja simplificada. Até cerca dos 3 anos, muitas crianças:

  • Trocam sons mais difíceis, como o /r/ forte ou grupos como “pr”, “tr”, “cl”

  • Simplificam palavras longas

  • São ainda difíceis de compreender por pessoas fora da família

Esta fase pode ser chamada, em termos informais, de “dislalia evolutiva”, ou seja, um conjunto de erros típicos do desenvolvimento que tendem a desaparecer à medida que a criança amadurece.

Por outro lado, começamos a pensar em dislalia como perturbação quando:

  • Após os 4 anos, a fala continua muito pouco clara

  • A criança mantém trocas, omissões ou distorções em muitos sons

  • Os adultos fora da família têm dificuldade em percebê-la

  • A própria criança se frustra porque ninguém a entende

Nestes casos, já não estamos apenas perante imaturidade. Estamos claramente na área da dislalia e vale a pena procurar uma avaliação em terapia da fala.

Principais sinais de alerta de dislalia

Para muitos pais, a grande dúvida não é tanto “o que é dislalia”, mas sim “como sei, na prática, se devo preocupar-me com dislalia”. Alguns sinais ajudam a distinguir:

Se notar vários destes sinais em conjunto, aumenta a probabilidade de estar perante dislalia e não apenas uma “fala de bebé prolongada”.

  • Trocas persistentes de sons depois dos 4 anos

  • Fala difícil de entender por pessoas que não convivem diariamente com a criança

  • Omissões frequentes de consoantes em início, meio ou fim de palavras

  • Distorções de sons, como um “s” muito soprado ou um “r” com som estranho

  • A criança evita falar em público, responde pouco ou só com gestos

  • Comentários de educadores ou professores sobre a fala pouco clara

  • Frustração visível da criança quando precisa de repetir o que disse

Quando estes sinais se prolongam no tempo, passa a ter impacto na autoestima, na participação em sala de aula e na forma como a criança se relaciona. É precisamente aqui que o diagnóstico e o tratamento fazem uma enorme diferença.

Causas mais frequentes da dislalia 

A dislalia pode resultar de vários fatores, que podem atuar isoladamente ou em combinação.

De forma geral, as causas mais descritas na literatura incluem:

  • Alterações estruturais da cavidade oral

    • Palato alterado, malformações, fendas palatinas, lábio leporino

    • Má oclusão dentária ou alterações importantes na posição dos dentes

  • Alterações no freio da língua

    • O chamado “freio curto” pode limitar movimentos da língua e favorecer dislalia em determinados sons, sobretudo aqueles que exigem elevação ou vibração da língua

  • Função orofacial desajustada

    • Padrões de mastigação pouco eficazes

    • Postura de boca aberta e respiração pela boca

    • Posição da língua inadequada em repouso e na fala

    • Nestes casos, a dislalia aparece muitas vezes associada a padrões como a respiração oral, exigindo trabalho conjunto sobre fala e função.

  • Questões auditivas

    • Otites de repetição

    • Perdas auditivas leves não detetadas

    • Se a criança não ouve com clareza determinados sons, é mais provável que desenvolva dislalia nesses mesmos sons.

  • Fatores ambientais e de aprendizagem

    • Pouca exposição a modelos de fala claros

    • Adultos que mantêm durante muito tempo um “linguajar de bebé”

    • Ambiente pouco estimulante em termos de conversas, histórias e leitura

  • Condições associadas

    • Perturbações do desenvolvimento

    • Condições neurológicas

    • Outros distúrbios da comunicação, em que a dislalia surge como parte de um quadro mais abrangente

É importante sublinhar que dislalia não se explica por “preguiça”, “manias” ou “falta de esforço”. É uma dificuldade real na articulação dos sons, que merece ser compreendida e acompanhada.

Tipos de dislalia

Quando se estuda dislalia de forma mais técnica, é habitual encontrar diferentes classificações, que ajudam a orientar o diagnóstico e o tratamento. As mais comuns incluem:

  • Dislalia evolutiva

    • Erros típicos do desenvolvimento, esperados em crianças pequenas

    • Costumam desaparecer sem intervenção à medida que a criança cresce

    • Só são considerados dislalia problemática se se mantêm para além da idade esperada

  • Dislalia funcional ou perturbação fonológica

    • Não há alterações estruturais evidentes nem lesão neurológica

    • A dificuldade está na aprendizagem e organização dos sons

    • É uma das formas mais frequentes de dislalia em idade pré-escolar e escolar

  • Dislalia audiógena

    • Dislalia associada a perdas auditivas

    • Resulta do facto de a criança não ouvir com suficiente precisão os sons que deve reproduzir

  • Dislalia orgânica

    • Relacionada com malformações, alterações estruturais ou lesões neurológicas

    • Frequente em crianças com fenda palatina ou outras alterações anatómicas

Dislalia e outras perturbações da comunicação

Raramente existe num “vazio”. É comum que apareça associada a outras dificuldades, e isto influencia a forma como se aborda a dislalia em terapia da fala.

Algumas crianças apresentam dislalia em simultâneo com atraso da linguagem, ou seja, começam a falar mais tarde, com frases mais simples e vocabulário mais reduzido. 

Também pode existir dislalia em crianças com gaguez infantil, em que a dificuldade principal está na fluência da fala, mas coexistem trocas articulatórias que precisam de ser trabalhadas.

Em idade escolar, é relativamente frequente observar dislalia em crianças com dislexia, uma perturbação específica da leitura, na qual as dificuldades de processamento fonológico podem afetar tanto a forma como a criança lê como a forma como organiza os sons na fala.

Em quadros mais complexos, a dislalia pode coexistir com apraxia da fala infantil, em que o problema central está no planeamento motor da fala, ou com perturbações da motricidade orofacial mais marcadas.

Em todos estes casos, falar de dislalia é apenas uma peça de um puzzle maior que precisa de ser avaliado com cuidado.

Avaliação da dislalia em terapia da fala

Quando há suspeita de dislalia, o passo seguinte é uma avaliação detalhada em terapia da fala. É aqui que se confirma se há efetivamente dislalia, quais os sons afetados e que outros aspetos da comunicação estão em causa.

Habitualmente, o processo de avaliação da dislalia inclui:

  • Entrevista com os pais

    • História do desenvolvimento da criança

    • Antecedentes de gravidez, parto, saúde, otites, cirurgia

    • Idiomas presentes em casa e no meio escolar

  • Observação da comunicação global

    • Como a criança interage, pede ajuda, faz perguntas

    • Se a dislalia está a limitar a vontade de falar

  • Avaliação específica da articulação

    • Nomeação de imagens, repetição de palavras e frases

    • Identificação rigorosa dos sons em que surge dislalia, em posição inicial, medial e final de palavra

  • Avaliação da motricidade orofacial

    • Força e coordenação de lábios, língua e mandíbula

    • Padrão de mastigação e deglutição

    • Verificação de sinais de respiração oral que possam estar a contribuir para a dislalia

  • Quando necessário, articulação com outros profissionais

    • Pediatra, otorrinolaringologista ou outros especialistas

    • Encaminhamento para avaliação auditiva, se houver suspeita de perda de audição

No final, o terapeuta da fala explica à família o quadro de dislalia, apresenta um plano de intervenção claro e define objetivos realistas.

Hoje, esse acompanhamento pode ser feito em terapia da fala presencial ou, em muitos casos, através de terapia da fala online, o que facilita o acesso quando as famílias têm rotinas apertadas ou vivem longe dos grandes centros.

Tratamento da dislalia

Quando se fala em dislalia, causas e tratamento andam sempre de mão dada. Felizmente, o tratamento da dislalia, especialmente quando iniciado cedo, costuma ter um prognóstico muito favorável.

Em linhas gerais, o tratamento da dislalia em terapia da fala segue vários passos:

  • Consciência do som

    • A criança aprende a ouvir com atenção o som que está em causa na dislalia

    • Trabalham-se pares mínimos (ex.: “gato” vs “tato”) e jogos auditivos para distinguir sons

  • Produção do som isolado

    • O terapeuta ajuda a criança a encontrar a posição correta da língua, lábios e mandíbula

    • Usa espelho, pistas visuais e táteis

    • O objetivo é que a dislalia deixe de existir pelo menos naquele som isolado

  • Produção em sílabas, palavras e frases

    • O som certo é integrado em sílabas (“ga, gue, gui, go, gu”), depois em palavras e frases

    • A dislalia vai sendo substituída por um padrão correto, passo a passo

  • Generalização para o discurso espontâneo

    • Jogos, histórias e conversas guiadas ajudam a transportar os ganhos da terapia para o dia a dia

    • A família é envolvida para reforçar a correção da dislalia em contexto natural

  • Trabalho da motricidade orofacial quando necessário

    • Se a dislalia estiver ligada a fragilidades musculares ou padrões inadequados, incluem-se exercícios para língua, lábios e bochechas

    • Nestes casos, o trabalho articula-se muitas vezes com aspetos como mastigação e respiração

O tempo de tratamento da dislalia varia consoante a idade da criança, o número de sons envolvidos e a presença ou não de outras dificuldades associadas. Mas a regra é clara: quanto mais cedo for abordada a dislalia, mais rápido e estável tende a ser o progresso.

O papel dos pais no tratamento da dislalia

Nenhum plano de tratamento da dislalia está completo sem a participação ativa da família. Aquilo que se faz em casa, entre sessões, é determinante para consolidar as conquistas e acelerar a superação da dislalia.

Algumas estratégias simples e eficazes incluem:

  • Oferecer bons modelos de fala

    • Falar de forma clara, pausada e articulada

    • Evitar imitar os erros da dislalia “porque é engraçado”

  • Repetir sem corrigir de forma agressiva

    • Se a criança disser “ato”, o adulto pode responder “Sim, o gato está a dormir”

    • A dislalia é corrigida de forma implícita, sem crítica direta

  • Ler todos os dias

    • Histórias com rimas, repetições e ritmo ajudam a trabalhar sons afetados pela dislalia

    • A leitura em voz alta reforça vocabulário e consciência fonológica

  • Jogar com os sons

    • Jogos de rimas, lengalengas, canções e jogos de “qual é a palavra que começa com…?”

    • São formas lúdicas de trabalhar a dislalia sem parecer “trabalho de casa”

  • Dar tempo para a criança falar

    • Não completar sempre as frases por ela

    • Ouvir com atenção, mostrar interesse genuíno, mesmo quando a dislalia ainda é muito marcada

  • Reforçar o esforço, não apenas o “acerto”

    • Valorizar quando a criança tenta corrigir a dislalia

    • Focar-se no progresso e não só nos erros

Estas estratégias fazem com que o tratamento da dislalia deixe de ser “algo que acontece só na consulta” e passe a ser um processo contínuo, integrado na rotina da família.

Quando procurar ajuda e porque não vale a pena esperar

Perante dúvidas sobre dislalia, muitos pais ouvem frases como “é melhor esperar, cada criança tem o seu tempo”. Embora seja verdade que cada criança tem o seu ritmo, também é verdade que a intervenção precoce em dislalia traz benefícios muito claros.

De forma prática, é aconselhável procurar avaliação em terapia da fala quando:

  • A fala continua pouco clara após os 4 anos

  • Há trocas, omissões ou distorções muito frequentes

  • A criança se frustra ou evita falar por causa da dislalia

  • Educadores ou professores referem dificuldades em percebê-la

  • Existem outros sinais associados, como atraso da linguagem, dificuldades de leitura ou gaguez infantil

Mesmo que, no final, se conclua que a dislalia ainda está dentro do que é esperado, ganha-se sempre por ficar esclarecido. E, se a dislalia já justificar intervenção, começar cedo significa dar à criança uma vantagem enorme no seu percurso escolar e social.

Conclusão

Chegados aqui, já vimos em detalhe o que é dislalia, quais as causas da dislalia, como a dislalia é avaliada e quais as linhas gerais do tratamento da dislalia. A mensagem principal é simples: dislalia não é preguiça, não é falta de inteligência e não é um “defeito” de personalidade. É uma dificuldade específica na articulação dos sons da fala, que pode e deve ser trabalhada.

Quando a dislalia é acompanhada em terapia da fala, com a participação ativa da família e, idealmente, com a colaboração da escola, a criança ganha clareza na fala, confiança em si própria e mais prazer em comunicar. Em vez de se calar por vergonha da dislalia, passa a querer contar histórias, fazer perguntas e participar.

Se sente que a fala do seu filho “não está a acompanhar” e reconhece vários sinais descritos ao longo deste artigo, não espere que a dislalia passe sozinha.

Procure apoio em terapia da fala, considere também a flexibilidade da terapia da fala online quando necessário e dê à criança a oportunidade de ser plenamente escutada. A dislalia é apenas um capítulo, com a ajuda certa, este capítulo pode terminar com uma comunicação segura, clara e cheia de possibilidades.

Referências bibliográficas

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  • Bishop, D. V. M. (2014). Uncommon Understanding: Development and Disorders of Language Comprehension in Children. Psychology Press.

  • Guimarães, I. (2015). Terapia da Fala em Pediatria. Lidel.

  • Snowling, M. J., & Hulme, C. (2012). Interventions for children’s language and literacy difficulties. International Journal of Language and Communication Disorders.

  • Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala. Dicionário Terminológico de Terapia da Fala e linhas orientadoras de prática clínica.

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Nota importante: As estratégias e aplicações aqui apresentadas destinam-se apenas a fins informativos e de apoio complementar. Não substituem a avaliação nem a intervenção de um terapeuta da fala. O acompanhamento profissional é essencial para garantir a correta articulação dos sons e a adequação das atividades às necessidades individuais.

Sempre que a criança (ou adulto) ainda não consegue produzir o som corretamente em isolamento ou sílaba, deve procurar orientação direta de um terapeuta da fala antes de utilizar recursos de prática autónoma.

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