As dificuldades de mastigação em crianças são muito mais comuns do que muitos pais imaginam. Podem ir desde “demora eterna” para comer, engasgos frequentes ou recusa em aceitar alimentos mais sólidos, até situações em que a criança quase não mastiga e apenas engole pedaços.
Para além do stress à mesa, estas dificuldades de mastigação em crianças podem afetar o crescimento, a nutrição, a saúde oral e até o desenvolvimento da fala.
Neste artigo vamos explicar, de forma clara, o que são dificuldades de mastigação em crianças, quais os sinais de alerta, as principais causas e como a terapia da fala pode ajudar. O objetivo é que, no final, saiba distinguir o que faz parte do desenvolvimento normal e o que merece avaliação especializada.
O que são dificuldades de mastigação em crianças?
De forma simples, falamos em dificuldades de mastigação em crianças quando a forma como a criança tritura, desloca e prepara o alimento na boca não é eficaz, segura ou adequada à sua idade.
A mastigação faz parte da motricidade orofacial, área que engloba funções como respiração, sucção, mastigação, deglutição e fala. Quando há dificuldades de mastigação em crianças, é frequente existirem também alterações noutras funções, como engolir ou articular sons.
Alguns exemplos de dificuldades de mastigação em crianças:
Criança que não consegue passar de purés para alimentos mais “para trincar”.
Mastigação muito lenta e cansativa.
Alimentos que ficam guardados nas bochechas, sem serem devidamente triturados.
Engasgos, tosse ou vómito durante as refeições.
Mastigação sempre do mesmo lado da boca.
Criança que parece “não saber o que fazer” com alimentos mais sólidos.
Estas dificuldades de mastigação em crianças podem existir em crianças com diagnóstico neurológico ou de desenvolvimento, mas também em crianças sem qualquer diagnóstico, apenas com imaturidade motora oral, alterações sensoriais ou hábitos alimentares pouco ajustados.
Como se desenvolve a mastigação nas crianças?
Para perceber melhor as dificuldades de mastigação em crianças, ajuda conhecer o desenvolvimento típico. A mastigação não aparece de um dia para o outro; é o resultado de um caminho que começa logo nos primeiros meses de vida, com a sucção.
Estudos sobre desenvolvimento oromotor mostram que as funções de sucção, mastigação, deglutição e fala vão amadurecendo ao longo dos primeiros anos, com marcos importantes entre os 6 meses e os 6 anos.
De forma geral:
Por volta dos 4-6 meses
A criança começa a interessar-se pelo que os adultos comem.
Prepara-se a introdução alimentar.
Cerca dos 6 meses
Inicia-se a alimentação complementar, muitas vezes com purés.
A criança aprende a mover o alimento na boca e a engolir diferentes texturas.
Entre os 8-10 meses
Aparece uma mastigação mais ativa, com movimento de mandíbula.
Podem ser introduzidos alimentos mais macios em pedaços.
Entre 12-18 meses
Espera-se que a criança mastigue pequenos pedaços, com movimentos mais coordenados.
Começa a mastigar em ambos os lados, ainda que com alguma preferência.
Entre 2-3 anos
A mastigação torna-se mais madura e eficiente.
A criança já deve lidar com a maior parte das consistências habituais da alimentação familiar, com supervisão.
Quando este percurso é muito atrasado, inconsistente ou inseguro, as dificuldades de mastigação em crianças tornam-se mais evidentes sobretudo quando comparam com irmãos ou colegas da mesma idade.
Principais causas de dificuldades de mastigação em crianças
As dificuldades de mastigação em crianças raramente acontecem “sem motivo”. Normalmente resultam de uma combinação de fatores motores, sensoriais, médicos e ambientais.
As causas mais frequentes incluem:
1. Alterações na motricidade orofacial
Quando há fraqueza, pouca coordenação ou movimentos limitados de língua, lábios, mandíbula e bochechas, torna-se mais difícil mastigar de forma eficiente. Crianças com alterações na motricidade orofacial podem ter dificuldade em triturar o alimento, mover o bolo alimentar e preparar a deglutição.
É precisamente esta área que é trabalhada pela terapia da fala na vertente de motricidade orofacial.
Uma boa forma de aprofundar os conceitos base é consultar um glossário de motricidade orofacial, onde termos como mastigação unilateral, postura lingual ou deglutição atípica são explicados de forma acessível.
2. Condições neurológicas ou de desenvolvimento
Em crianças com paralisia cerebral, perturbações do espetro do autismo, síndromes genéticas ou atrasos de desenvolvimento, as dificuldades de mastigação em crianças são muito frequentes. Podem existir alterações no tónus muscular, coordenação, sensibilidade oral ou planeamento motor, o que impacta diretamente a alimentação.
3. Questões sensoriais
Algumas crianças têm hipersensibilidade ou hipossensibilidade oral: reagem de forma exagerada a certas texturas, temperaturas ou sabores, ou quase não reagem. Isso leva a recusa de alimentos sólidos, vómito, engasgos ou muito stress nas refeições, contribuindo para dificuldades de mastigação em crianças.
4. Hábitos orais e rotinas alimentares
Uso prolongado de biberão, chupeta, alimentos sempre triturados ou muito “desfeitos” podem atrasar a maturação da mastigação. Estudos mostram que o uso prolongado de biberão e chupeta se relaciona com pior desempenho mastigatório e padrão oromotor menos eficiente.
5. Fatores médicos
Refluxo gastroesofágico, alergias alimentares, dificuldades respiratórias, problemas dentários ou alterações estruturais (por exemplo, frénulo lingual alterado) também podem contribuir para dificuldades de mastigação em crianças. Nesses casos, é importante a articulação entre pediatra, dentista, otorrino e terapeuta da fala.
Sinais de alerta de mastigação em crianças
Nem toda recusa alimentar é um problema de mastigação. Mas há sinais específicos que devem chamar a atenção dos pais. Quando vários destes sinais se repetem, é muito provável que existam dificuldades de mastigação em crianças e que seja necessária avaliação.
Alguns sinais de alerta:
Evita alimentos que é suposto trincar
Recusa carne, fruta crua, legumes crus ou pão.
Aceita purés, iogurtes e papas, mas recusa peças.
Mastigação muito lenta ou ineficiente
Leva muito tempo numa refeição.
Cansa-se a meio e deixa de comer.
Engasgos, tosse ou vómitos frequentes
Parece não conseguir coordenar mastigar e engolir.
Pais têm medo de oferecer certos alimentos.
Guarda comida na boca
Fica com comida “nas bochechas” sem engolir.
Precisa que os adultos lembrem “mastiga e engole”.
Mastigação sempre do mesmo lado
A criança só mastiga de um lado da boca, o que pode afetar o equilíbrio muscular e a oclusão dentária.
Dependência prolongada de alimentos triturados
Muito depois dos 2 anos, continua a precisar de tudo passado.
Se o alimento não estiver bem triturado, recusa.
Dificuldades noutros aspetos orais
Saliva a escorrer com frequência.
Dificuldades em soprar, lamber, imitar movimentos com a língua.
Fala pouco clara, com sons pouco definidos, o que pode relacionar-se com alterações oromotoras associadas.
Quando vários destes sinais estão presentes, faz todo o sentido pensar em dificuldades de mastigação em crianças e não apenas em “esquisitices” alimentares.
Impacto das dificuldades de mastigação em crianças no desenvolvimento
As dificuldades de mastigação em crianças não afetam apenas o momento da refeição. Podem ter impacto em várias áreas:
Nutrição e crescimento
Mastigar mal pode levar a ingestão insuficiente ou limitada a certos grupos de alimentos, o que compromete vitaminas, minerais e energia necessária ao crescimento.
Saúde oral
Mastigar pouco ou de um só lado pode influenciar a oclusão dentária e o desenvolvimento das arcadas.
Desenvolvimento da fala
A mesma musculatura usada para mastigar está envolvida na produção de sons e palavras. Estudos apontam para uma relação entre mastigação, desempenho oromotor e qualidade da fala.
Não é por acaso que crianças com dificuldades de mastigação em crianças surgem com mais frequência em consultas de atraso da linguagem, apraxia da fala infantil ou perturbações articulatórias.
Comportamento e relação com a comida
Refeições tensas, pressão para comer, medo de engasgar, tudo isto pode criar um ciclo de ansiedade em torno da alimentação, tanto para a criança como para a família.
Por tudo isto, as dificuldades de mastigação em crianças devem ser vistas como um sinal importante, e não apenas como “manha” ou “falta de apetite”.
Avaliação das dificuldades de mastigação em crianças
O profissional indicado para avaliar dificuldades de mastigação em crianças é o terapeuta da fala, frequentemente integrado numa equipa multidisciplinar com pediatria, nutrição, terapia ocupacional e outras áreas, consoante o caso.
Na avaliação, o terapeuta da fala irá:
Recolher a história clínica
Gravidez, parto, desenvolvimento motor, antecedentes médicos.
História alimentar: introdução dos sólidos, hábitos atuais, alimentos preferidos e recusados.
Observar a estrutura e função orofacial
Mobilidade de lábios, língua, mandíbula e bochechas.
Tónus muscular, postura da língua, respiração (oral ou nasal).
Avaliar a mastigação em contexto real
Observação da criança a comer diferentes texturas (pastosa, mole, sólida).
Análise da forma como pega, trinca, tritura, desloca e engole.
Identificar fatores sensoriais e comportamentais
Reações a cheiros, texturas e temperaturas.
Comportamentos de recusa, fuga da refeição, birras associadas.
Em muitos casos, a avaliação das dificuldades de mastigação em crianças também considera a fala, pois alterações como disartria ou perturbações motoras orais podem estar presentes em simultâneo.
Tratamento dea mastigação em crianças
A boa notícia é que, na maioria dos casos, as dificuldades de mastigação em crianças podem ser significativamente melhoradas com intervenção adequada.
A terapia da fala atua diretamente sobre a motricidade orofacial, a coordenação mastigatória e a segurança da deglutição.
Os planos de intervenção são sempre individualizados, mas incluem, habitualmente:
1. Exercícios de motricidade orofacial
Exercícios específicos ajudam a fortalecer e coordenar lábios, língua, bochechas e mandíbula, tornando a mastigação mais eficiente.
Alguns exemplos (apenas o terapeuta da fala deve decidir o que é adequado para cada criança):
Movimentos dirigidos de língua (para cima, para baixo, para os lados).
Trabalhar a abertura e fecho de boca com controlo.
Exercícios de sopro, sucção e pressão labial.
Se quiser conhecer ideias de exercícios de motricidade orofacial, existem recursos pensados para serem usados em conjunto com o terapeuta da fala, nunca em substituição.
2. Treino de mastigação com alimentos reais
Para tratar dificuldades de mastigação em crianças, não basta fazer exercícios “no ar”. É fundamental treinar com alimentos verdadeiros, escolhidos em função do nível de segurança e do objetivo terapêutico.
A evidência aponta para abordagens estruturadas de treino funcional de mastigação, nas quais se trabalha, de forma gradual, a força, o ritmo e a coordenação mastigatória, com melhoria comprovada da função em crianças.
3. Adaptação de texturas e estratégias de segurança
Enquanto se trabalha a mastigação, é muitas vezes necessário adaptar texturas, cortar os alimentos de forma específica ou ajustar a postura da criança para garantir segurança e conforto.
O terapeuta da fala orienta os pais sobre:
Que alimentos oferecer em cada fase.
Como cortar ou preparar para reduzir risco de engasgamento.
Posições adequadas à mesa e ritmo das refeições.
4. Trabalho sensorial e comportamental
Nas dificuldades de mastigação em crianças associadas a recusa alimentar ou hipersensibilidade, o plano inclui dessensibilização gradual, exposição suave a novas texturas e estratégias para reduzir a ansiedade nas refeições.
Quando necessário, o terapeuta da fala articula com outros profissionais, por exemplo em quadros de gaguez infantil, dislexia ou perturbações mais abrangentes, onde a alimentação é apenas uma parte da intervenção.
5. Orientação contínua à família
Os pais são peça central na melhoria das dificuldades de mastigação em crianças. A terapia da fala inclui sempre treino parental: como reagir durante as refeições, o que evitar (pressão, chantagem, distrações em excesso), como construir rotinas previsíveis e mais tranquilas.
Para muitas famílias, é útil ter acesso a terapeutas da fala online que permitam manter o acompanhamento mesmo com horários apertados ou quando não há serviços especializados perto de casa.
O que os pais podem fazer em casa
Mesmo sem diagnóstico formal, há estratégias simples e seguras que os pais podem implementar para apoiar crianças com dificuldades de mastigação em crianças:
Oferecer variedade de texturas, de forma gradual
Não manter a criança eternamente em purés.
Introduzir alimentos macios em pedaços pequenos, com supervisão.
Dar tempo para mastigar
Evitar pressa e constantes “anda, engole”.
Respeitar o ritmo da criança, sem prolongar a refeição indefinidamente.
Evitar distrações excessivas
Televisão ou tablet podem ajudar pontualmente, mas impedem a criança de prestar atenção ao que está a fazer com a boca.
Estimular brincadeiras orais seguras
Soprar bolhinhas, apitos apropriados, brincar com palhinhas – sempre com supervisão – pode ajudar a fortalecer a musculatura envolvida na mastigação.
Observar e registar
Tomar nota dos alimentos que causam mais dificuldade, dos episódios de engasgo e das situações em que as dificuldades de mastigação em crianças são mais evidentes.
Esta informação será muito útil na consulta de terapia da fala.
Estas estratégias não substituem uma avaliação, mas ajudam a apoiar o processo quando já existe intervenção ou enquanto aguarda consulta.
Quando procurar ajuda especializada
Deve procurar ajuda de um terapeuta da fala se:
A criança tem mais de 12-18 meses e recusa sistematicamente qualquer alimento que não seja triturado.
Os engasgos são frequentes, mesmo com alimentos adequados à idade.
As refeições são sempre um momento de stress, com birras intensas e recusa persistente.
Nota que a mastigação é claramente diferente da de outras crianças da mesma idade.
A criança tem diagnóstico neurológico, síndromes genéticas ou atraso global do desenvolvimento e, além disso, dificuldades de mastigação em crianças bem marcadas.
Nestes casos, vale a pena marcar consulta de terapia da fala para esclarecer a situação, perceber se existem efetivamente dificuldades de mastigação em crianças e definir um plano de intervenção.
Para muitas famílias, a terapia da fala online é uma solução prática que permite manter o acompanhamento, receber orientações em tempo real e ajustar estratégias à rotina diária, sem deslocações demoradas.
Conclusão
As dificuldades de mastigação em crianças não são apenas uma fase “esquisita” da alimentação. Quando persistem, podem comprometer a nutrição, a saúde oral, o bem-estar emocional e até o desenvolvimento da fala.
A boa notícia é que, com avaliação correta e intervenção em terapia da fala focada na motricidade orofacial e na função alimentar, a grande maioria das crianças consegue melhorar significativamente a mastigação.
Se se revê nos sinais descritos ao longo deste artigo, observe o seu filho com atenção, registe o que acontece nas refeições e dê o passo seguinte: procure apoio especializado.
Quanto mais cedo forem identificadas as dificuldades de mastigação em crianças, mais rápido será o caminho para refeições mais tranquilas, seguras e prazerosas para toda a família.
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