Deglutição atípica: o que é, sinais e como tratar

A hora da refeição devia ser um momento tranquilo, mas nem sempre é assim. Quando a língua empurra os dentes, a boca fica entreaberta, a mastigação é difícil ou engolir parece um esforço, pode estar presente uma deglutição atípica.
Esta alteração é muito frequente em crianças, mas também pode afetar adolescentes e adultos, com impacto na alimentação, na fala, na respiração e até na autoestima.

A hora da refeição devia ser um momento tranquilo, mas nem sempre é assim. Quando a língua empurra os dentes, a boca fica entreaberta, a mastigação é difícil ou engolir parece um esforço, pode estar presente uma deglutição atípica.

Esta alteração é muito frequente em crianças, mas também pode afetar adolescentes e adultos, com impacto na alimentação, na fala, na respiração e até na autoestima.

Neste artigo, vamos explicar de forma clara o que é a deglutição atípica, quais os sinais a que deve estar atento e como é feita a correção através da intervenção em terapia da fala. Se preferir, hoje é também possível receber apoio por terapia da fala online, o que facilita o acompanhamento regular e consistente.

O que é deglutição atípica?

De forma simples, fala-se em deglutição atípica quando a forma de engolir não segue o padrão considerado funcional para a idade. Em vez de um movimento coordenado, discreto e eficiente, observam-se padrões compensatórios, como a língua a empurrar os dentes, esforço excessivo dos lábios ou do queixo e movimentos faciais exagerados durante o ato de engolir.

Na definição clássica, este padrão está associado à interposição da língua entre os dentes, selagem labial insuficiente ou uso exagerado da musculatura à volta da boca, muitas vezes relacionado com maloclusões dentárias. Na prática clínica, vê-se como um padrão de deglutição infantil que se manteve para além da idade esperada ou como uma adaptação a outras alterações, por exemplo respiratórias ou estruturais.

É importante lembrar que a deglutição atípica não é apenas “um hábito feio” ou uma questão estética. Trata-se de uma alteração funcional, que pode interferir com o crescimento craniofacial, com a mastigação, com a fala e com a segurança na alimentação em alguns casos.

Como é a deglutição normal ao longo do desenvolvimento

Para perceber a deglutição atípica, ajuda entender primeiro o que é esperado em cada fase do desenvolvimento. O padrão de deglutição muda desde o nascimento até à idade adulta, acompanhando o crescimento da face, a erupção dos dentes e a introdução de novas texturas alimentares.

Num quadro simplificado, o percurso costuma ser este:

  • Bebé – predominam a sucção e um padrão reflexo. A língua faz movimentos para a frente e para trás, coordenados com a respiração e a deglutição.
  • Transição para sólidos – a mastigação vai surgindo, a língua começa a fazer movimentos mais laterais, os lábios ganham mais força e vedação.
  • Criança mais velha e adulto – a deglutição funcional passa a ser mais discreta: a língua apoia-se no palato (céu da boca), os dentes aproximam-se, os lábios fecham de forma natural e há pouco movimento visível no queixo ou face.

Quando um padrão mais infantil se mantém (por exemplo, a língua continua a projetar-se para a frente ou a ficar entre os dentes ao engolir) ou quando a pessoa cria compensações por causa de outros problemas, pode instalar-se um padrão de deglutição atípica.

Causas mais frequentes de deglutição atípica

A deglutição atípica raramente aparece “do nada”. Geralmente resulta de uma combinação de fatores estruturais, funcionais e hábitos orais mantidos no tempo. Nenhum caso é igual, mas há causas que aparecem repetidamente na prática clínica.

Entre as causas e fatores de risco mais comuns encontram-se:

  • Hábitos orais prolongados – uso prolongado de chucha, sucção do dedo, roer unhas, morder lápis ou outros objetos, especialmente se mantidos para além dos 3-4 anos.
  • Respiração predominantemente pela boca – a respiração oral altera o posicionamento da língua, o tónus dos lábios e a postura global, favorecendo padrões de deglutição compensatórios.
  • Alergias respiratórias e obstruções nasais – rinite alérgica, hipertrofia de adenóides ou amígdalas aumentadas podem dificultar a respiração nasal, empurrando a criança para a respiração oral.
  • Alterações dentárias ou esqueléticas – mordida aberta, dentes muito projetados, palato estreito ou outras maloclusões podem estar associadas a padrões de deglutição alterados.
  • Alterações do frénulo lingual – um frénulo muito curto ou pouco funcional pode limitar os movimentos da língua e levar a padrões compensatórios.
  • Doenças neurológicas ou síndromes – em alguns casos, a deglutição atípica integra um quadro mais abrangente de alteração motora, muscular ou de coordenação.
  • Introdução alimentar pouco variada – se a criança se mantém durante muito tempo em texturas muito pastosas e pouco desafiantes, a musculatura pode não desenvolver a força e coordenação necessárias para uma deglutição funcional.

É por isso que a avaliação da deglutição atípica nunca se limita a “ver a língua”: é preciso olhar para a respiração, postura, mastigação, dentição, hábitos orais e história de saúde da criança ou adulto.

 

Sinais de deglutição atípica em bebés, crianças e adultos

Nem sempre é fácil para os pais ou para a própria pessoa perceber que a forma como engole está alterada. No entanto, alguns sinais são bastante típicos e podem ser observados no dia a dia, durante as refeições ou até em repouso.

Alguns sinais frequentes de deglutição atípica incluem:

  • língua visível entre os dentes ou a empurrar os dentes ao engolir;
  • movimento exagerado do queixo ou do pescoço durante a deglutição;
  • lábios que precisam de “fazer força” para conseguir engolir;
  • restos de comida na boca após engolir, sobretudo em crianças;
  • fugas de líquidos pelos cantos da boca;
  • ruídos audíveis ao engolir saliva, água ou alimentos;
  • respiração pela boca, frequentemente associada a boca aberta em repouso;
  • língua muito “parada” na boca, sem participar de forma eficaz na mastigação;
  • mordida aberta anterior ou dentes da frente mais projetados;
  • postura da cabeça e do pescoço desalinhada na hora da refeição.

Em crianças, a deglutição atípica pode surgir em conjunto com dificuldades de mastigação em crianças, seletividade alimentar, recusa de determinados alimentos ou fadiga ao mastigar. Em adultos, muitas vezes o motivo de procura é a estética dentária, dores articulares, sensação de esforço ao engolir ou problemas na fala.

 

Consequências da deglutição atípica se não for tratada

Nem todas as pessoas com deglutição atípica vão desenvolver problemas graves, mas ignorar este padrão ao longo dos anos pode trazer várias consequências. Quanto mais cedo se intervém, menor tende a ser o impacto a longo prazo. Algumas das possíveis consequências incluem:

  • Alterações na dentição e no crescimento facial – mordida aberta, desalinhamento dentário, palato estreito e outras maloclusões podem agravar-se ao longo do tempo, muitas vezes exigindo tratamento ortodôntico prolongado.
  • Problemas de mastigação e alimentação – dificuldade em lidar com alimentos mais duros ou fibrosos, fadiga ao mastigar, refeições muito longas ou pouco eficientes.
  • Risco aumentado de disfagia em alguns quadros – em casos específicos, sobretudo quando há outras condições associadas, a alteração da deglutição pode comprometer a segurança na alimentação.
  • Impacto na fala – distorções de sons, fala “soprada”, projeção anterior da língua ou problemas na fala infantil podem estar associados a um padrão orofacial global alterado.
  • Desconforto, dores ou tensão muscular – tensão nos músculos do pescoço, da face ou da articulação temporomandibular pode ser consequência de movimentos compensatórios repetidos.
  • Impacto psicossocial – vergonha ao comer em público, receio de engasgos ou insatisfação com a aparência dentária podem diminuir a autoestima.

A boa notícia é que, com avaliação adequada e um plano de intervenção estruturado, a deglutição atípica pode ser trabalhada com excelentes resultados, especialmente quando existe colaboração entre terapia da fala pediátrica, medicina dentária e outros profissionais de saúde.

 

Avaliação em terapia da fala e diagnóstico

O primeiro passo para tratar a deglutição atípica é uma avaliação detalhada, realizada por um terapeuta da fala com experiência em motricidade orofacial e função alimentar. Esta avaliação não se limita a “olhar para a língua” durante alguns segundos: é um processo abrangente, que integra vários momentos e contextos.

Habitualmente, a avaliação inclui:

  • entrevista inicial para recolha de história clínica, hábitos orais, desenvolvimento, antecedentes médicos e queixas atuais;
  • observação da face em repouso, postura global, respiração e tónus muscular;
  • análise da estrutura oral: lábios, língua, palato, frénulo, dentes, oclusão;
  • observação da mastigação com diferentes texturas alimentares;
  • observação da deglutição de saliva, líquidos e sólidos, em segurança;
  • registo em vídeo ou fotografia, quando necessário, para comparar ao longo da intervenção;
  • articulação com outros profissionais (odontopediatra, ortodontista, otorrinolaringologista, pediatra, etc.) quando se identificam fatores que exigem co-intervenção.

Com base nestes dados, o terapeuta da fala define se existe uma deglutição atípica, quais os fatores que a estão a manter e que objetivos terapêuticos fazem sentido para aquela pessoa específica.

 

Tratamento da deglutição atípica

O tratamento da deglutição atípica é centrado na terapia miofuncional orofacial, uma abordagem que trabalha força, coordenação e equilíbrio da musculatura da face, língua, lábios e mandíbula, sempre aplicada a funções reais como respirar, mastigar e engolir.

De forma geral, o plano de intervenção inclui:

  • Correção de hábitos orais – retirada gradual e orientada da chucha, do dedo, de objetos que a criança coloque na boca, bem como de padrões como morder lábios ou bochechas.
  • Trabalho da respiração nasal – quando possível, com apoio médico se existirem obstruções, para que a pessoa consiga respirar predominantemente pelo nariz.
  • Fortalecimento e coordenação da musculatura orofacial – exercícios específicos para língua, lábios e bochechas, integrados em atividades funcionais e lúdicas, sobretudo em crianças.
  • Reeducação da postura da língua – treino da posição de repouso da língua no palato e da sua ação correta durante a deglutição.
  • Treino da mastigação – introdução progressiva de alimentos com diferentes texturas, trabalho de mastigação bilateral e ritmada, sempre adaptada à idade.
  • Treino sistemático da nova deglutição – prática repetida, com feedback, em saliva, água e alimentos, até que o novo padrão se torne automático.

Em muitos casos, o trabalho em terapia miofuncional é feito em paralelo com tratamento ortodôntico. Trabalhar apenas os dentes, sem reeducar a função, aumenta o risco de recidiva, isto é, de os dentes voltarem a deslocar-se por causa de forças musculares desequilibradas.

As sessões podem ser presenciais ou em formato de terapia da fala online, desde que sejam garantidas boas condições de observação e colaboração da família. O mais importante é a regularidade das sessões e a prática consistente dos exercícios em casa.

 

O que pode fazer em casa para ajudar

Mesmo antes da avaliação, ou enquanto decorre o acompanhamento, há várias atitudes simples que a família pode adotar para apoiar o tratamento da deglutição atípica. Não substituem a intervenção profissional, mas reforçam os ganhos terapêuticos.

Algumas estratégias úteis incluem:

  • garantir que a criança está bem apoiada à mesa, com pés assentes e tronco alinhado;
  • oferecer alimentos adequados à idade, com alguma variedade de texturas, evitando prolongar em excesso papas muito líquidas ou pastosas;
  • evitar distrações excessivas durante as refeições (ecrãs, brinquedos constantes), para que a criança possa sentir o próprio corpo e o ato de mastigar e engolir;
  • observar se a boca está frequentemente aberta em repouso e, se for o caso, discutir isso na avaliação;
  • não reforçar hábitos como chuchar no dedo, morder a gola da camisola ou roer objetos – e pedir ajuda profissional para planear a retirada;
  • seguir as orientações e planos de exercícios enviados pelo terapeuta da fala, transformando-os em jogos rápidos e integrados na rotina.

Se notar sinais de esforço, engasgos frequentes ou recusa alimentar persistente, é importante partilhar estas observações na consulta. Em alguns casos, a deglutição atípica aparece em conjunto com outros quadros, e uma intervenção precoce pode evitar problemas maiores no futuro.

 

Quando procurar ajuda e que profissional consultar

Idealmente, a deglutição atípica deve ser identificada e tratada o mais cedo possível, muitas vezes em idade pré-escolar ou no início da idade escolar. No entanto, nunca é “tarde demais” para intervir: adolescentes e adultos também beneficiam de reeducação funcional.

É recomendável procurar avaliação quando:

  • observa a língua entre os dentes ao engolir ou em repouso;
  • há alimentação muito lenta, cansaço a mastigar ou recusa de alimentos mais consistentes;
  • existem alterações dentárias importantes ou tratamento ortodôntico em curso;
  • a criança apresenta outros sinais associados, como respiração oral persistente, roncopatia ou sono agitado;
  • há história de engasgos frequentes, infeções respiratórias recorrentes ou dificuldades alimentares mais marcadas;
  • nota problemas na fala infantil que se mantêm para além do esperado.

O terapeuta da fala é o profissional indicado para avaliar a função de mastigação, respiração e deglutição, bem como o impacto na comunicação. Em muitas situações, o trabalho em equipa com otorrinolaringologista, pediatra, ortodontista ou outros especialistas é o caminho mais eficaz para resultados estáveis.

Se tem dúvidas sobre o desenvolvimento global da comunicação e da alimentação do seu filho, pode também explorar conteúdos sobre terapia da fala pediátrica e marcar uma avaliação com um profissional especializado.

 

Conclusão

A deglutição atípica não é “uma fase” que passa sempre sozinha, nem apenas uma questão de estética dentária. Trata-se de uma alteração funcional que envolve língua, lábios, músculos da face, respiração, postura e hábitos orais. Quando não é identificada e tratada, pode contribuir para problemas dentários, dificuldades de mastigação, alterações da fala e impacto na qualidade de vida.

Por outro lado, quando existe uma avaliação cuidadosa, um plano de intervenção personalizado em terapia da fala e colaboração da família, é possível reeducar o padrão de deglutição, melhorar a eficiência na alimentação e promover um desenvolvimento mais harmonioso.

Se reconheceu alguns dos sinais descritos neste artigo em si ou no seu filho, o próximo passo pode ser tão simples como agendar uma avaliação com um terapeuta da fala. Quanto mais cedo agir, mais fácil será mudar padrões, acompanhar o crescimento e evitar que pequenas alterações de hoje se tornem grandes desafios amanhã.

Referências bibliográficas

  • Marchesan, I. Q. (2004). Deglutição: diagnóstico e possibilidades terapêuticas. Obra de referência em motricidade orofacial e padrões de deglutição.
  • Ribeiro, L. M. M. (s.d.). Deglutição: processo normal e patológico. Texto de revisão sobre as fases da deglutição e suas alterações.
  • Dragone, M. L. O. S. (1986). Deglutição atípica: uma prática clínica. Discussão clínica de sinais característicos e intervenção.
  • Araújo, J. N. (2019). Deglutição atípica: revisão teórica. Trabalho académico sobre definições, etiologia e implicações clínicas.
  • Autores diversos (2023). A deglutição atípica como forma de desenvolvimento pós-natal da função oral: revisão de literatura. Análise do papel da função oral e dos hábitos na instalação da deglutição atípica.
  • Sociedades científicas de terapia da fala e fonoaudiologia. Guias de boas práticas em motricidade orofacial, deglutição e terapia miofuncional.

Resumo rápido deste artigo

A hora da refeição devia ser um momento tranquilo, mas nem sempre é assim. Quando a língua empurra os dentes, a boca fica entreaberta, a mastigação é difícil ou engolir parece um esforço, pode estar presente uma deglutição atípica. Esta alteração é muito frequente em crianças, mas também pode afetar adolescentes e adultos, com impacto na alimentação, na fala, na respiração e até na autoestima.

O que vai encontrar neste artigo

  • Causas mais frequentes de deglutição atípica
  • Sinais de deglutição atípica em bebés, crianças e adultos
  • Consequências da deglutição atípica se não for tratada
  • Avaliação em terapia da fala e diagnóstico
  • Tratamento da deglutição atípica
  • Conclusão
  • Referências bibliográficas

Pontos principais

  • Hábitos orais prolongados - uso prolongado de chucha, sucção do dedo, roer unhas, morder lápis ou outros objetos, especialmente se mantidos para além dos 3-4 anos.
  • registo em vídeo ou fotografia, quando necessário, para comparar ao longo da intervenção;
  • Dragone, M. L. O. S. (1986). Deglutição atípica: uma prática clínica. Discussão clínica de sinais característicos e intervenção.
  • Araújo, J. N. (2019). Deglutição atípica: revisão teórica. Trabalho académico sobre definições, etiologia e implicações clínicas.
  • articulação com outros profissionais (odontopediatra, ortodontista, otorrinolaringologista, pediatra, etc.) quando se identificam fatores que exigem co-intervenção.
  • Risco aumentado de disfagia em alguns quadros - em casos específicos, sobretudo quando há outras condições associadas, a alteração da deglutição pode comprometer a segurança na alimentação.

Perguntas respondidas

  • O que é deglutição atípica?
  • Como é a deglutição normal ao longo do desenvolvimento?
  • O que pode fazer em casa para ajudar?
  • Quando procurar ajuda e que profissional consultar?

Termos importantes

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Fontes e referências externas presentes no artigo

Autor: DaFala · Publicado em: 27 de Novembro, 2025 · Última atualização: 14 de Maio, 2026

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Nota importante: As estratégias e aplicações aqui apresentadas destinam-se apenas a fins informativos e de apoio complementar. Não substituem a avaliação nem a intervenção de um terapeuta da fala. O acompanhamento profissional é essencial para garantir a correta articulação dos sons e a adequação das atividades às necessidades individuais.

Sempre que a criança (ou adulto) ainda não consegue produzir o som corretamente em isolamento ou sílaba, deve procurar orientação direta de um terapeuta da fala antes de utilizar recursos de prática autónoma.

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