A pergunta repete-se em consultas, conversas de família e grupos de pais: a chupeta atrasa a fala? A resposta curta é: por si só, a chupeta não “estraga” a fala, mas o uso prolongado e quase constante pode, sim, interferir no desenvolvimento da fala, da linguagem e de outras funções orais importantes.
Se o seu filho adora chupeta, acorda com ela, brinca com ela e adormece com ela, é natural que surja a dúvida sobre se este hábito pode estar a limitar a vontade de falar, a forma como articula os sons ou até a forma como a boca e a língua se desenvolvem.
Neste artigo explicamos, em linguagem simples, quando o uso da chupeta é considerado aceitável, em que situações o uso prolongado pode ser um problema e o que pode fazer, na prática, para proteger a fala e a linguagem da criança.
Ao longo do texto vamos responder, com detalhe, à questão “a chupeta atrasa a fala?” e mostrar quando faz sentido procurar terapia da fala para esclarecer dúvidas ou intervir precocemente.
A chupeta atrasa a fala?
A sucção não nutritiva (chupar chupeta, dedo ou outros objetos) é um comportamento normal nos primeiros meses de vida e pode ter um papel importante na autorregulação e no conforto do bebé. O problema não está em usar chupeta, mas sim em como, quanto tempo e até que idade esse uso se mantém.
De forma geral, estudos têm mostrado que o uso prolongado da chupeta pode estar associado a:
- Menos tempo com a boca livre para balbuciar, experimentar sons e interagir verbalmente com os adultos;
- Alterações no posicionamento da língua e dos lábios, que podem afetar a forma como certos sons são produzidos;
- Maior risco de alterações na arcada dentária, que também influenciam a articulação;
- Possível associação com respiração oral e outros hábitos orais que impactam o desenvolvimento orofacial.
Isto não significa que todas as crianças que usam chupeta vão ter atraso de fala ou linguagem. Mas ajuda a perceber porque é que tantos profissionais defendem que a chupeta seja usada com moderação e retirada de forma gradual, idealmente por volta dos 2 anos ou pouco depois, em vez de se manter até idades mais avançadas.
Porque é que o uso prolongado da chupeta pode interferir na fala?
Quando pensamos se a chupeta atrasa a fala, não estamos a falar apenas de sons isolados. Falamos de um conjunto de fatores que, somados, podem dificultar o desenvolvimento comunicativo da criança.
Menos oportunidades para falar e experimentar sons
A fala aprende-se a falar. Se a criança passa grande parte do dia com a chupeta na boca, fica com menos tempo útil para balbuciar, imitar sons, brincar com palavras e responder aos adultos. A interação continua a existir, mas pode ficar mais pobre em termos de produção verbal.
Nos primeiros anos de vida, cada minuto em que a boca está livre e ativa, a explorar sons e palavras, é uma oportunidade de treino. Quando os pais relatam que a criança “tira a chupeta só para dizer uma palavra rápida e volta a pôr”, vale a pena refletir sobre o equilíbrio entre conforto e desenvolvimento da linguagem.
Posicionamento da língua e dos lábios
O uso prolongado da chupeta pode levar a que a língua se habitue a ficar mais baixa e recuada na boca, enquanto os lábios se adaptam a manter o bico da chupeta no lugar. Este padrão não é o mais favorável para a produção de muitos sons da fala.
Sons como /s/, /z/, /t/, /d/, /n/, /l/ e até alguns sons vibrantes podem exigir ajustes, se a língua não estiver habituada a ocupar as posições adequadas. Em alguns casos, isto contribui para erros articulatórios ou para uma fala mais “infantilizada” do que o esperado para a idade.
Influência na arcada dentária e na mastigação
O hábito de sucção mantido por vários anos pode alterar a forma como os maxilares crescem e como os dentes se relacionam (por exemplo, mordida aberta anterior). Estas alterações dentárias, para além de exigirem acompanhamento em medicina dentária, podem dificultar a produção correta de certos sons e a própria mastigação.
Quando existem dúvidas sobre mastigação, recusa de alimentos mais consistentes ou dificuldade em trincar, é útil ler sobre dificuldades de mastigação em crianças e, se necessário, pedir uma avaliação específica em motricidade orofacial.
A chupeta atrasa a fala em todas as crianças?
Não. Há crianças que usam chupeta e desenvolvem fala e linguagem dentro dos prazos esperados. Outras, com uso semelhante, mostram atrasos claros na expressão verbal ou na articulação de sons. Isto acontece porque a fala resulta da combinação de vários fatores: genética, ambiente linguístico, oportunidades de interação, saúde geral, audição, entre outros.
O que a evidência sugere é que o uso prolongado, intenso e pouco controlado da chupeta aumenta o risco de dificuldades, especialmente quando se combina com outros fatores, como poucas oportunidades de conversa, exposição reduzida à linguagem ou antecedentes familiares de atraso da linguagem e problemas de fala.
Por isso, em vez de procurar uma resposta rígida para a pergunta “a chupeta atrasa a fala?”, é mais útil pensar em termos de risco e de equilíbrio: quanto mais tarde se retirar, mais horas por dia a criança a usa e menos oportunidades tem para falar, maior é a probabilidade de impacto.
Sinais de alerta: quando a chupeta pode estar a pesar na comunicação
Alguns sinais que justificam maior atenção incluem:
- Depois dos 2 anos, a criança usa chupeta grande parte do dia, mesmo acordada;
- A criança fala pouco, aponta ou puxa os adultos em vez de usar palavras;
- Há comentários frequentes de que “não se percebe o que diz” ou de que “fala para dentro”;
- A criança tira a chupeta só para dizer uma palavra ou duas, voltando logo a colocá-la;
- Aos 3 anos, grande parte da fala continua pouco clara para quem não convive com a criança diariamente;
- A criança parece ficar irritada ou ansiosa quando lhe pedem para tirar a chupeta para falar.
Se, além da questão “a chupeta atrasa a fala?”, já sente que o seu filho fala menos do que as outras crianças da mesma idade ou que a fala é muito difícil de perceber, pode ser útil ler sobre problemas na fala infantil e considerar uma avaliação em terapia da fala pediátrica.
Quando procurar terapia da fala?
Não é preciso esperar que a chupeta seja completamente retirada para procurar ajuda. Pelo contrário: muitas vezes, é justamente com o apoio da terapia da fala pediátrica que a família consegue organizar melhor o processo de desmame e perceber o que, de facto, está a acontecer com a fala da criança.
Faz sentido marcar uma avaliação quando:
- A criança já passou os 2 anos e continua muito dependente da chupeta durante o dia;
- Há suspeita de atraso na linguagem ou a criança usa poucas palavras para a idade;
- A fala é muito pouco percetível, com muitas sílabas “engolidas” ou trocas de sons;
- Os pais estão inseguros sobre se a chupeta está a interferir ou não no desenvolvimento da fala;
- Existem outras questões associadas, como alimentação seletiva, recusa de alimentos mais sólidos ou suspeita de respiração pela boca.
Na consulta, o terapeuta da fala avalia a comunicação global (compreensão e expressão de linguagem, qualidade da fala, motricidade orofacial) e ajuda a família a decidir o melhor plano: manter temporariamente, reduzir ou retirar a chupeta, e em que ritmo.
Estratégias práticas para reduzir o impacto da chupeta na fala
Mesmo sem retirar a chupeta de imediato, é possível reduzir o risco de interferência na fala com alguns ajustes simples do dia a dia:
- Reservar a chupeta para momentos de sono, cansaço extremo ou necessidade de consolo, evitando que esteja disponível “a toda a hora”;
- Combinar com a criança (de forma gradual) que, quando estiver a brincar ou a conversar, a chupeta fica num local específico;
- Priorizar momentos de brincadeira que envolvam imitação de sons, canções, rimas e histórias, com a boca livre;
- Oferecer alternativas de conforto, como peluches, mantas ou estratégias de autorregulação, para que a chupeta deixe de ser o único recurso;
- Falar muito com a criança, narrar o que está a acontecer, fazer perguntas simples e dar tempo para responder.
Se surgirem dúvidas sobre como estimular a comunicação no dia a dia, conteúdos práticos com exercícios de terapia da fala podem ajudar a transformar pequenas rotinas em oportunidades de treino de fala e linguagem.
Chupeta, sono e comportamento
Para muitas famílias, a chupeta está intimamente ligada ao sono: é com a chupeta que o bebé se acalma, adormece e volta a adormecer de madrugada. Por isso, a questão “a chupeta atrasa a fala?” muitas vezes vem acompanhada de “se tirarmos a chupeta, o sono vai piorar?”.
Nestes casos, pode ser útil articular o plano de desmame gradual com uma organização mais estruturada do sono da criança, recorrendo, quando necessário, a apoio especializado em terapia do sono ou psicologia infantil.
A transição tende a ser mais suave quando o foco não está apenas em retirar algo, mas em ensinar novas formas de conforto e em reforçar a segurança emocional.
Posso fazer terapia da fala online para esclarecer dúvidas?
Sim. Em muitos casos, sobretudo quando a dúvida principal é se a chupeta atrasa a fala no caso concreto da sua criança, uma consulta de esclarecimento pode ser feita à distância. Através de videochamada, é possível conversar sobre a rotina, observar a interação, ver pequenos vídeos da criança a falar e receber orientações iniciais.
Quando for necessário um acompanhamento mais prolongado, a intervenção pode combinar sessões presenciais com momentos de terapia da fala online, ajustando o plano à realidade da família.
Conclusão
A chupeta pode ter sido, e muitas vezes é, uma aliada importante em fases de maior choro, cólicas e noites difíceis. Culpar-se por a ter usado não ajuda. O que faz a diferença é o que decide fazer a partir de agora, à luz da pergunta “a chupeta atrasa a fala?” e da informação que já conhece.
Se sente que a chupeta ocupa espaço demais no dia a dia, se a fala do seu filho não está a evoluir como esperava ou se simplesmente quer ter a certeza de que está no caminho certo, procure informação de qualidade e não hesite em falar com um profissional de terapia da fala.
A decisão de manter, reduzir ou retirar a chupeta não precisa de ser tomada sozinho ou à base de opiniões contraditórias. Com orientação adequada, é possível encontrar um plano realista, respeitoso para a criança e alinhado com aquilo que, no fundo, todos queremos: uma fala clara, uma linguagem rica e uma comunicação em família mais tranquila e confiante.
Referências bibliográficas
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